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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"P'rá mesa!"

A vida faz-nos crer que somos todos crianças a brincar aos adultos. Estamos sempre à espera do momento tcharam, aquele em que nos tornamos adultos, mas esse momento nunca chega. Somos sempre os mesmos mas com uma cara e um corpo que não pára de amadurecer (sinónimo).
Mas se somos sempre miúdos, nesse caso, quem toma conta de nós? Medo. Acendam as luzes!

Os pais são os primeiros supostos adultos que conhecemos. Enfim, crianças com tamanho de adulto, digamos. Muitas vezes também eles querem chorar, atirar com o prato da sopa ao chão, berrar, espernear e morder o colega de trabalho, mas a diferença é que correm o risco de ser internados. Comprimido, camisa de forças e nunca mais ninguém lhes põe a vista em cima.
Esses embustes, ou fraudes de gente adulta, ensinam-nos a ser gente, a comer, a falar, a ter educação, a sermos dignos e honestos, enfim, a sobreviver e a sermos finalmente adultos, o que quer que isso seja. E nós, como bons aprendizes, vamos copiando e aprendendo o que é ser gente grande. Inicialmente queremos ser como eles, sair, conduzir, fumar, viajar, vestir o que nos apetece. E assim fazemos: pagamos contas, fazemos contratos, fazemos compras, comida. E trabalhamos que nem uns cães para poder fazer tudo isto. Marcamos reuniões importantes onde discutimos assuntos organizados por tópicos, os quais temos que desenvolver para resolver esses assuntos. Às vezes são importantes, outras um mail ou um aviso resolveria o problema. Mas fica sempre bem reunir pelo menos uma vez por semana. Nestas reuniões de adultos, há sempre tempo para viajar, olhar para os nossos pares e imaginar como são quando chegam a casa ou reparar em determinados tiques e inventar uma alcunha engraçada. Tem cara disto ou daquilo. 
Tentamos fazer cara séria, respeitar e ceder o mais que podemos, quando  o que realmente nos apetece é rir e fazer piadas com tudo o que vemos. Queremos andar de bicicleta e carrossel sempre que podemos com a desculpa de que é para acompanhar os miúdos, fazer surf, bunji-jumping, no verão, fazer bombas na piscina, fazer o croquete e rebolar na areia até ao mar, andar de baloiço e fazer lego com os sobrinhos. 

Mesmo querendo escapar, somos chamados à realidade a qualquer hora, própria ou menos própria. 'Acordei, quero leitinho, não quero tomar banho, não quero dormir, não quero ir à escola, tenho cólicas...' Ou para quem não tem filhos, as finanças ou o Imi tratam de chamar os Exmos contribuintes à realidade.
E quando acordamos e descobrirmos que somos nós na berlinda, não queremos mais brincar aos grandes. Queremos dizer "rebenta a bolha!", que tudo volte a ser como dantes, simples e divertido de manhã até à hora em que nos chamavam para jantar.

Bom, por hoje chega de escrita.
Há um jantar para pôr na mesa.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Soltem os mutantes - Parte II

Uma simples ida ao supermercado transforma-se numa expedição à selva em três tempos.
Entramos optimistas, de sorriso nos lábios, mas com um nervoso miudinho, como que antecipando o que nos espera. Fazemos as compras com alguma vontade e com imensas ideias para elaborar em casa. Ingrediente atrás de ingrediente vamos levando o que precisamos e, o que temos em dobro. 
Quando a lista chega ao fim, lembramo-nos que temos que passar pelas portas do inferno para deixar os dobrões. 
É nesse momento que olhamos para a meta. Eis que nos deparamos com as caixas cheias de bandos e matilhas como se tivesse chegado o dilúvio e todos quisessem entrar na arca e levar mantimentos. Começamos por bufar e por despir camadas de roupa. Pele atrás de pele, vamo-nos descascando para aliviar o calor. Chegamo-nos o mais que podemos ao cliente que está a nossa frente, pois se o fizermos, é certo que a fila vai andar mais depressa e a senhora da caixa, que está em modo câmara lenta, vai reparar que estamos com pressa e vai fazer acontecer o milagre da desmultiplicação de gente.
Neste momento, tiramos a pele que nos resta e em minutos passamos de humanos a selvagens.
Senão vejamos: a senhora gorda e barriguda faz-se imediatamente, como medida de recurso, passar por grávida. 'Eu tenho prioridade, não está a ver??' E eu penso, mas não digo, 'Não. Não estou a ver, senhora gorda.'; O senhor  que está com pressa para chegar mais depressa a casa, e que se encontra atrás da família com um carrinho a transbordar de compras, como leva apenas uma garrafa de água, começa a evidenciar que apenas tem um produto na mão, bufando e fazendo-se notar. De repente, alguém lança a confusão: 'não se entende! Tantas caixas e só 30 a funcionar!'. 'Pois, realmente! Isto é uma vergonha!'. 'E com tanta gente desempregada!'.
É vê-los zurrar, bufar e deitar fogo pelos olhos. 'Se pudesse agora, pregava-te uma rasteira e passava-te à frente. 'Ai, se soubesse que isto estava assim tinha trazido uma espingarda para espantar a caça!', 'mas porque é que não saí mais cedo de casa!' São muitos os lamentos que se adivinham com o olhar.

Assim que passamos as portas para lá do inferno, então tudo passa e tudo se esquece. É como se nunca tivéssemos estado ali, naquela angústia, com toda a bicharada.
Agora, de novo com um sorriso, estamos prontinhos para embarcar! ;)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

(No) Special one

'Nunca te esqueças, és uma pessoa especial'... Quem nunca ouviu esta frase? Todos nós já tivemos o prazer, pelo menos de uma pessoa uma vez na vida. Cheguei à conclusão que ser especial não é mais do que o que somos todos, para quem gosta de nós. É por isso a maior calúnia alguma vez dita. É no mínimo uma desilusão, para todos quantos são especiais.

É uma coisa que se diz, vá. É bonito, fica bem e enche a alma. Mas não sendo mentira, não diz toda a verdade. Ora, se todos nós já fomos assim designados, ainda que por uma vez, ser especial, então, não é ser nenhum carapau de corrida! 
Ser especial é ser diferente, único, inconfundível, implica uma característica que exclui. Mas exclui quem? Assassinos, psicopatas e antropófagos. Estes também são especiais, mas ao contrário.
Quando tive o meu momento, ainda não sabia isto. Agora que sei, já não quero. Assim não. Prefiro ser normal. Ou então fora de série. Poucas vezes se ouve falar assim. Pronto, é isso. 'És fora de série', é muito mais aceitável do que ser especial.
Aceito ser fora de série.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

'O meu Tio'

'Aqui em casa, ao matabicho, comemos ovo estrelado, bacon e café com leite! pá, tens que comer, chinesa!' (leia como se fosse gago, como ele).

Apreciava um bom matabicho, e como era para ele, queria dar aos outros o que gostava de comer. Para sabermos que era bom, ou para sabermos como era bom o que ele gostava.
Lá tive que comer. 'Tó Manel, eu não como a parte branca do ovo, vou ficar mal disposta...'. 'oh, garota, come o ovo, pá!, não ficas nada mal disposta, chinesa!'. Comi. E fiquei. Maldisposta. 
Passados tantos anos, não me esqueço nem deste episódio, nem de como gosto de ovo estrelado e da sua parte branca.

Tinha destas coisas. Como um marreta. Quando em parelha com o meu pai, era uma comédia. Teimava naquilo que achava que era melhor, para ele e para os outros. Tinha muita graça, quando os dois davam início ao 'Muppet show'. 'Tás maluco, pá, Zé!, aquele coise do gripe azur... é maningue nice!'.  'Oh Tó Manel, és doido!, pá, o gajo caiu 5 quilos prá baixo'. E podiam ficar neste registo um dia inteiro. Eles não se incomodavam. Por outro lado, quem estava em redor, ensandecia.

Muito se pode dizer do meu tio. Muitas histórias, muitas memórias... tantas quantas as infindáveis historias que contava.
De entre muitas, recordo duas que marcaram a nossa infância, e que criaram no nosso imaginário, um cenário indescritível: Tinha lutado com um elefante e por isso tinha o dedo anelar torto (na verdade foi um acidente) e  tinha moedas alojadas na garganta, as quais não conseguia tirar. Fez-nos acreditar durante anos que era verdade.
Tinha sempre um episódio pronto, como se tivesse estado a preparar para entreter quem viesse. Falava acerca da sua vida, desde a infância com os seus pais e seus irmãos, nas aventuras com o Zé Quinhocas, das suas passagens pelo Sudão, África do Sul, da sua terra -Moçambique - e da sua paixão, o seu filho.
Obrigada Tó Manel, pelas tuas histórias, pela tua boa disposição e pelo teu carinho. 'Possa pá!'.
See you.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Meia zinha.

Há um hábito irritante de se dizer tudo acabado em inho, inha, zinhos e zinhas. E quando ouvimos falar assim diariamente, passa de irritante a muito irritantezinho.
Ouve-se pedir um 'cafézinho, uma biquinha, um pãozinho' e até 'uma sopinha'. É claro que a sopinha é tolerável. É uma coisinha quentinha que nos aquece e aconchega, além de que a própria palavra parece que está a pedi-las. O que já se torna abusivo e uma ameaça à nossa sanidade é a nova moda de inhos. Preparados? Tcharaaam! A meinha de leite! Sim, isso mesmo.
Não entendo.
Ela já é pequena. É só metade. Para quê torná-la mais pequena ainda? Ficamos com a ideia de que por ser pedida com mais carinho não vai haver hipótese de se entornar em cima do cliente. Foi pedida com cuidado, com jeitinho e com ternura. Logo, tem que ser servida com pézinhos de lã. (Este zinho não tem alternativa). Esta é uma tese. Por outro lado, parece que estão a pedir fiado. 'Um cafezinho por favor, vá lá...'
  
Quanto ao café, não gosto de o ver ser tratado assim. Um café é forte, é robusto, encorpado, amargo e nem toda a gente pode com ele. Senão vejamos: há quem o peça 'sem princípio, sem veneno, sem as primeiras gotas'... e porquê? Porque é um café. Porque é forte. E um café não vai bem com um zinho.
A chávena é pequena, é certo, mas não se julgue por aí o seu conteúdo. Além do mais, e como diz o povo, o tamanho (da chávena) não importa. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

E o Óscar vai para ... 'Ninguém'.

As pessoas surpreendem-nos sempre. Por mais que digamos que já vimos de tudo, há sempre mais qualquer coisinha para ver, bem sabemos. Não é novidade nenhuma.
Ora, quando pensamos que conhecemos e que identificamos tipos de pessoas, que as pomos em caixinhas e que, de cada uma delas, já sabemos bem o que vai sair, meus caros, estamos perante  um equívoco.
Há pessoas que julgamos conhecer e que, por isso, as identificamos como sendo de um tipo, 'esta é deste monte, aquela do outro'. Inesperadamente, vão-se revelando ao longo do tempo, resultando em agradáveis surpresas. Das duas uma: ou é presunção de quem as vê ou a maioria das pessoas é muito mais do que o dinheiro que tem, a roupa que veste, o grau académico, educação, meio social e papel que desempenha. Aposto tudo na segunda hipótese. Uma pessoa é tão só isso mesmo. E pode ser e voltar a ser o que quiser, sem amarras.
Falemos então das surpresas. Todos conhecemos pessoas assim. Não damos nada por elas (que expressão tão infeliz...) mas com o tempo revelam-se-nos pessoas admiráveis. Tal como um actor desconhecido mas promissor, num papel secundário.
São geralmente simples, desenrascadas, descomplicadas e práticas. São básicas no desempenho sem o serem no fundo. Deixam-nos de 'boca aberta' quando nos mostram soluções, quando nos repetem baixinho a próxima deixa e nos ajudam a prosseguir. Na verdade, pensamos sempre que aquela pessoa será sempre um 'aprendiz' e nunca um 'mestre'. E não é assim. Ou melhor, nem sempre.
'Take One'.
É claro que os papéis desempenhados por cada um não são nem fixos nem principais. Digamos que são, ao invés, rotativos. O segredo é este mesmo: para andar em frente não pode haver vedetas. A aprendizagem é sempre bilateral. Uma troca de géneros, 'em géneros, por favor'. Isto sim é sinal de inteligência e mestria. Nunca sabemos tudo, estamos longe disso, mesmo que se presuma que se sabe um pouco mais do que com quem se contracena.

Esqueçam os óscares, passadeiras vermelhas, vestidos de cauda, luzes e flashes.
Isto não é um filme.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Soltem os Mutantes

O que nos distingue dos animais, de entre muitas coisas, é o facto de sermos racionais. Isto não significa porém, que consigamos sempre agir como tal. Porque vivemos em sociedade somos 'obrigados', também, a viver segundo determinadas regras. Regras essas gerais, de boa educação e convivência, que não sendo rígidas, inquebráveis, ou invioláveis, são principalmente regras onde deve imperar o bom senso. Mas esse, varia tanto de pessoa para pessoa que chego mesmo a pensar que devia ser proibído. 

Muito embora nos distanciemos da outra espécie, somos por vezes assustadoramente parecidos com eles. Abutres, leões, mabecos, ratos, cães, macacos. Há-os de todas as qualidades, tamanhos e feitios. Há mesmo quem compare a nossa sociedade à dos animais, onde cada espécie tem correspondência com os diversos sectores. É uma teoria bastante válida. Podemos avançar que por vezes uma marradita ou um pequeno coice dá muito jeito e resolve pequenas quezílias. Em todo o caso, já lá vai o tempo em que tudo acabava com a frase, 'Vamos lá para fora resolver isto mano a mano.' Será?

Sabemos pois, estar, respeitar, sorrir, ser simpáticos, cortêses, educados... enfim, tudo o que de melhor um ser humano pode ser. Até ao dia. Sim, esta é a frase da casa. Somos todos 'sorrisinhos' até ao dia. E é deveras engraçado observar a mutação que acontece nas pessoas, quando chegam 'esses dias'. É um processo de transformação do estado humano para o animal, que decorre em câmara lenta. Do tipo filme cómico, quando uma das personagens grita 'Nãaaaaaaaaooooooooo!', durante cerca de 5 segundos. Hilariante. Tenho a certeza que estão neste momento a visualizar a situação. Todos nós mantemos sempre uma postura correcta e adequada a cada situação. Tentamos. Pelo menos até àquele momento em que alguém incoveniente faz uma insinuação ou tece um qualquer comentário que é tomado como uma calúnia. Lá se vai o chá todo. Lá se vai o berço e o sangue azul. Parecemos então possuídos pelo espírito da Peixeira do Bulhão. Só falta a mão na cintura. Este é o último suspiro humano. A transformação está dada.
É nesse momento que nos aproximamos, a título de exemplo, de um canídeo ou de um felino (conforme os gostos). Atacar, morder, saltar para cima da presa é tudo o que queremos. É o instinto, o que podemos fazer? Entretanto, enquanto passa e não passa a Reacção, ficam os vestígios de gente mentalmente descabelada, assaltada, arranhada e por fim espancada.

De qualquer maneira, tudo na vida acaba por passar. E a mutação também. Terminado o combate uns sacodem-se outros lambem as feridas. Despem-se as garras e os dentes afiados, pegamos na mala e deixamos a vida selvagem para trás.

sábado, 22 de janeiro de 2011

'Cuidado com o génio da lâmpada'

Desde sempre estamos habituados à ideia mágica, pura e naif do que significa pedir um desejo. Acreditamos, do mesmo modo infantil, que estes pedidos se vão realizar (com toda a certeza), pelo facto de se designarem 'Desejos' mas principalmente porque os pedimos, com jeitinho. E com modos: 'Por favor. Vá lá. E obrigado'.

Pedimos desejos por tudo e por nada. Pedimos por altura do nosso aniversário, no momento em que mordemos uma vela. Lá vai um. Pedimos quando vemos uma estrela cadente. Pedimos na passagem de ano, enquanto engolimos atrapalhadamente, entre brindes e abraços, as doze passas cuidadosamente separadas para não escapar nenhuma. Pedimos também, já noutra modalidade, a todos os nossos Deuses (de acordo com a espiritualidade de cada um) e em alguns casos a todos os santos e anjinhos. E vão quatro. Pedimos, pedimos, pedimos.
De entre estes, uns são pedidos gerais, essenciais ou apenas banais. Os mais comuns são a saúde, a felicidade, o amor e o dinheiro. Por outro lado, desejamos coisas extraordinárias, dignas da presença do génio da lâmpada. E ainda assim, esperamos, e sabemos bem lá no fundo que simplesmente se irão realizar. Nem queremos saber como. Ao mesmo tempo que nos parece fantasioso e irracional, é mesmo a melhor maneira de se lidar com um desejo. Devemos pedir exactamente o que queremos por mais irrealizável que nos pareça. Se quisermos muito, é provável que aconteça. Tão provável, como não acontecer nada. 'Como??' Resumindo, para quem acredita na lei da atracção, tão em voga, é provável que tudo o que queremos com sentimento aconteça. Não interessa como, por que meios, ou por mão de quem. Se tiver que acontecer, vai acontecer. De qualquer forma a questão aqui não é esta. Para esta matéria dirija-se à seccção de 'Auto ajuda' da livraria mais próxima. É uma boa questão mas vamos agora centrar-nos noutro assunto.

E se por acaso esses desejos se realizam? O que fazemos com eles? Há quem diga que o problema não é quando um desejo não se realiza mas sim o contrário. Faz sentido. Ora bem, se o que desejamos com tanta força se realiza passado um longo período de tempo, pode muito bem já não fazer parte da nossa vontade no momento. Pode, por isso, passar de sonho a pesadelo num instante. Por outro lado, aquilo que imaginamos querer muitas vezes não é bem o que queremos. Ou porque ainda não experimentámos, e por isso não sabemos se gostamos ou porque mudámos e mudam também os nossos desejos. E que pesadelo pode ser um desejo realizado.

Tentamos depois remediar. 'Sr. Génio da Lâmpada, posso por favor pedir um quarto desejo para inverter o terceiro?' Nada feito, caro Aladino.
Tenho muito cuidado hoje em dia com aquilo que desejo. Sei lá se não se realiza mesmo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

'Quer com muita ou pouca emoção?'

Já esteve na moda, dizê-la. Já foi usada por tudo e por nada. Serve para descrever estados e sensações extremas. Está relacionada com emoções fortes e situações radicais.
É radical, de facto. Poderosa e perigosa também.

ADRENALINA.
Vive em cada um de nós. Está lá quietinha, nos seus padrões normais. Até um dia. Até àquele dia em que a sentimos libertar-se. Por duas razões apenas: ou por medo ou por euforia. E é nesse momento que precisamos dela para enfrentar ou o prazer ou a dor. Jamais sobreviveríamos às emoções fortes sem a sua existência.
Às mais variadas loucuras podemos atribuir a sua libertação. Será assim para uns. Para outros serão somente episódios banais do dia a dia. 'Presunção e adrenalina, cada um toma a que quer'. Mas todos gostamos de nos sentir daquela maneira, possuídos (salvo seja...) por um estado de alma que nos transcende e que por mais que queiramos não controlamos. Controlamos sim, quando podemos escolher situações. Escolhemos seguir em frente e sentir o que há a sentir ou escolhemos ficar. Quietos. Mas se escolhermos ir, vamos sim , mas com 'muita emoção'.

É um estado dúbio. Envolve sentimentos contraditórios. Sabe bem mas ao mesmo tempo consome-nos um pouco, temos a sensação que nos tira tempo de vida. No momento em que sentimos é bom, é óptimo, satisfaz-nos na nossa própria medida. Quando passa, e dependendo das situações, parece que levámos pancada qual saco de boxe. Mas que sentimento ou estado de alma, daqueles que valem mesmo a pena, dos bons, não nos deixa de rastos? Hã? Não há, caríssimos. Quem quer intensidade, mesmo que por momentos, tem que estar preparado para as consequências, tem que, como dizia o outro '...passar além da dor'. É por isso natural que tudo o que é maravilhoso tenha sempre o lado negro. Ou pelo menos cinzento, já sabemos. 
Há adrenalina em tudo o que vivemos intensamente, portanto. Há no amor, há na aventura, há na busca do desconhecido, nas experiências radicais, em situações de perigo e na dor também. Enfim, em tudo quanto pusermos a nossa integridade, autenticidade e intensidade . 
Quando vivemos essas situações limite, por nossa escolha ou não, e somos postos à prova, sentimos tudo à flor da pele, temos a sensação de que estamos vivos, vivos demais. Entendemos o verdadeiro sentido da frase 'pisar o risco'.  E no momento imediatamente a seguir dizemos, com toda a certeza, que não mais queremos voltar a sentir assim. 'Nunca!' Passados momentos dizemos, 'pelo menos não a toda a hora'. E no dia seguinte, já queremos mais do mesmo. Voltar a experimentar esse sentimento inebriante e com sabor agri-doce. Por isso, quando dizemos 'nunca' nunca dizemos toda a verdade. Por medo, ou como diz Jack Nicholson numa famosa deixa*, porque não estamos preparados para lidar com ela.


Então como é que vai ser, hoje, com muita ou pouca emoção?


*'...You can't handle the truth', in 'Uma questão de honra'

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

'Simplesmente simples'

Há dois tipos de pessoas: as simples e as outras. Claro que esta afirmação é completamente falsa, ou melhor, é meia verdadeira. Há pelo menos mais dois ou três.
Refiro-me a pessoas simples não como simplórias, nem como humildes, nem tão pouco como ignorantes. Refiro-me à sua estrutura. De índole simples.
É mais fácil viver-se assim. Será? A vida seria, pelo menos, bem mais... simples. Tudo é muito mais fácil, há menos frustrações, quase tudo está bem. Precisamos de pouco para estar bem. Com pouco, quero dizer coisas simples, básicas, que estão ligadas às necessidades primárias do ser humano e das suas relações com os outros. Não se fazem grandes exigências. Ou pelo menos daquelas impossíveis de se concretizarem.
Não significa, porém, que não haja ambição nas pessoas simples. Há e deve haver. Toda a gente no mundo quer mais ou menos a mesma coisa. Amor, saúde, amizade, dinheiro, felicidade e paz no mundo (pelo menos todas as 'Miss Mundo'). Toda a gente tem, por isso, qualquer ambição, mesmo que não seja uma 'ambição muito ambiciosa'.
Não há, no entanto, exigências com muitas coisas. Há exigências sim, as fundamentais na vivência de cada um, mas não as há ao nível da metafísica. As pessoas simples querem, desejam e ambicionam o que há, o que já existe para se escolher, o que já foi inventado, encontrado, definido e catalogado. Aceitam o que existe e escolhem alegremente. E assim vivem felizes, pelo menos nesta faceta das suas vidas. (Noutras, sabe-se lá. O que vai para dentro da porta de cada um, só Deus sabe. Ou Buda ou seja quem for).
Resumindo e generalizando (que é sempre um risco muito grande), as pessoas simples ficam satisfeitas com as coisas que encontram por aí, massificadas ou não.

Há depois um conjunto de pessoas que anda um pouco entre lá e cá, entre uma coisa e outra, conseguindo retirar o melhor dos dois mundos. Penso que seja a melhor maneira de se lidar com esta questão. Nem oito nem oitenta. 
Em todo o caso penso que não se escolhe. Nasce-se inclinado para um monte ou para outro. Como se nos carimbassem à nascença. 'Condenado'.
Podemos identificar então um terceiro grupo, dos carimbados. São tudo menos simples. Querem na teoria o que é simples, mas na prática o que eles querem sei eu: tudo menos simplicidade. Querem tudo o que é transcendente, o que está para lá de, para além de, para cima de, diferente de, feito à medida de. 
Em suma, complexo, mas vai de bom a muito bom.  
Observamos pessoas à nossa volta desde sempre. E desde sempre percebemos esta diferença. É certo que uns vêm o que outros não vêm. Mas quem pode definir o que é melhor? Haverá decerto quem nem sequer entenda estas diferenças ou pelo menos que não as entenda como definidoras de um género tão distinto de outro. Quanto a mim vejo o género simples a quilómetros de distância e admiro-o. Só. Sem o querer. No fundo, todos quantos o vemos, não sabemos se o queremos para nós. Sabemos que ele existe, que está ali, na prateleira da grande superfície, mas não sabemos bem se o queremos. É o chamado comprador indeciso. Ou gourmet. Há então que convencê-lo. 
Ou não.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Frase(s) famosa(s)




'Torna-te naquilo que és.' 
Nietzsche, Filósofo  
E um dia ela tornou-se naquilo que sempre foi.
Desconhecido, Blogger

sábado, 20 de novembro de 2010

'Vejo luz, logo sou daltónico'

Quantas personagens tem cada um de nós? Pelo menos, 'cerca de muitas'.
É legítimo, mas no mínimo inocente, pensar que cada um de nós é sempre o mesmo independentemente das situações ou intervenientes com os quais nos envolvemos. Somos sempre nós mas indiscutivelmente vários 'nós'. Multiplicamo-nos quase como se tivessemos um distúrbio mental, do tipo 'dupla personalidade'. Bom, em alguns casos, há que dizê-lo com frontalidade, a realidade não se confunde com a ficção e não há lugar a metáforas. E não são poucos. Em todo o caso, não é grave porque em maior ou menor grau somos todos um pouco 'duplos'. E triplos e por aí em diante. E não é mau. Também não posso afirmar que seja bom. É para mim a única forma que conheço de Ser. A razão é simples. Os outros. A nossa relação com os outros condiciona o nosso Eu. 
Há pessoas que só retiram de nós coisas boas. Somos completamente diferentes com uns e com outros. Há depois os que só fazem despoletar em nós coisas negativas ao ponto de começarmos a questionar perante o espelho, 'será um monstro que vejo perante mim?' Não penso que sejam casos isolados de pessoas más por natureza ou feias ou agressivas. A combinação é que não presta. É fraca, doente, pobre. Só traz nada. Muito de nada. Ou mais do mesmo.
Interessa falar de coisas interessantes. Chega de crises de qualquer género. Económicas ou existenciais. De qualquer maneira é bom encontrarmos 'eus' de todo o tipo para relativizarmos um pouco e sabermos o nosso lugar. Somos sempre Deus e Diabo, Sol e Lua, branco e preto. E cinzento também. Porque é preciso.
E então quem não gosta de ser o melhor que pode? Haverá alguém? Se alguém tem algo a dizer, que fale agora ou cale-se para sempre. Como? Ninguém? Prossigamos. 
Assim, queremos rodear-nos de pessoas do tipo UM (as que nos fazem ser melhores) que nos levantam, nos puxam, nos levam mais além, nos dão um empurrão quando precisamos dele. Não queremos ser puxados para baixo. Só queremos andar em frente, subir e sermos nós, na versão melhorada, integral e original.

A experiência é de facto uma grande fatia do conhecimento que conseguimos acumular ao longo da vida. Só depois de conhecermos dois sabores podemos dizer que gostamos mais de um. Faz sentido. Por isso só entendemos de facto coisas sobre nós próprios (e sobre os outros) quando interagimos com vários tipos de pessoas. Com umas somos melhores, mais engraçados, mais bonitos, mais brilhantes, mais altos, mais magros. MAIS tudo. Com outros somos tudo a menos.
Cada um vê o que quer como quer. A percepção que temos dos outros e vice-versa varia tal e qual um daltónico deturpa as cores que vê. Somos todos 'daltónicos' uns com os outros. Além disso, só vemos o que queremos ver, só vemos o que sabemos ver, da melhor maneira que conseguimos. E sabem de quem é a culpa? Obviamente da luz.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

'Tirem-me deste filme'

Alguma vez lhe aconteceu encontrar-se numa situação ou num lugar em que a única coisa que lhe passa pela cabeça é sair dali? E Depressa? Tenho a certeza que sim.
Às vezes embarcamos em situações tão bizarras que temos dificuldade em perceber se é realidade ou ficção. Sentimo-nos tal e qual num filme. Melhor; imagine uma catástrofe natural que fustigou o país inteiro e que dessa tragédia só resta você. Sim, o último espécime nacional (é muita pretensão...). Então ali estamos nós, únicos tripulantes da Arca. Somos levados para outro país, onde não conhecemos nem a língua, nem os costumes, nem nada. É isso mesmo que parece. Tudo à volta é-nos completamente estranho, não encontramos nada com que nos identifiquemos, a não ser o género. Humano.
Por mais surreal que tudo nos pareça, sentimos que somos nós o elemento estranho ou, porque não dizer, sentimo-nos completamente alienígenas. Apesar de termos a certeza de que somos 'normaizinhos', até muito acima dos padrões normais (mas com falta de modéstia, está visto) encarnamos a personagem do 'ET' e só nos apetece fazer como ele, 'ET phone home...' e fugir a 'sete pés'.

Tive o prazer de passar por esta experiência há uns dias. E por mais consciência que tenha de que de facto está tudo bem comigo, de que não sou nem um bocadinho alienígena, tenho sempre aquela sensação: 'mas que raio... Será que esta gente está toda errada e só eu tenho o dom da lucidez?'  Esta pergunta tem normalmente um tom sarcástico. Neste caso não. Ali havia de facto gente equivocada.
Gente, tinha muita. Solução, só havia uma.
'Boa tarde, até uma próxima.'

sábado, 13 de novembro de 2010

'Carta'

"Espero que esta carta te encontre bem e de saúde e te leve um pouco da minha amizade.
Escrevo para te dizer que não há nada que possas fazer. A vida é como é. Contra factos, não há argumentos. Ponto. Mas nada acontece por acaso. Tudo o que te foi sucedendo ao longo dos anos tem um propósito, ainda que no momento dos factos não consigas ver com clareza que de facto assim é. Voltando atrás, quando digo que não há nada que possas fazer, refiro-me ao que não está nas tuas mãos decidir, porque na verdade, há sempre qualquer coisa que podemos fazer. A única coisa definitivamente proibída, que não podemos fazer, de modo algum e em tempo algum, é ficar de braços cruzados. Podemos e devemos fazer sempre tudo o que está ao nosso alcance, até não aguentarmos mais. Dar o nosso máximo, ir ao limite. Mas sem quebrar. Isto é o melhor que podemos fazer por nós próprios. Não devemos ficar com nada por fazer, caso contrário vamos ter sempre uma consciência a aborrecer-nos todas as noites durante o sono 'devias ter feito isto, devias ter feito aquilo, eu avisei-te, não me deste ouvidos, agora... ficas acordado. Bem feita'.

De qualquer maneira há poucas fatalidades na vida, situações para as quais não há remédio. A única coisa que não tem remédio é a morte. E o destino. Também não escolhemos o destino, nem a sorte, ou o azar. O que temos é o que há. 'Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, sorte se a sorte é dada'. 
Tens, por isso, que pegar em todas as tuas ferramentas e sem desperdiçar nada, fazer delas a tua arma. Mas não gastes muitas energias a lutar por algo que está perdido à partida mas sim pelo que vale mesmo a pena. E tu sabes quando se trata de uma coisa ou de outra. Age naturalmente, sê simplesmente tu, sem esforço. As coisas vêm ter contigo, bem sabes que assim é, já tiveste provas disso. Mas isso é assunto para outra carta. Aproveita todas as coisas simples e belas que estão à tua volta. E são tantas. Sem precisares de procurar muito. A começar por ti, 'cara linda'. (sorriso) 
Assim, continua o teu caminho sem te desviares muito de ti. Estás tão perto. Não deixes que nada estrague o que tens feito até aqui. 

Aquilo que eu desejo para mim, é o que desejo para ti.
'Saúdinha' e 'boa sorte' "  
Aqui fica um poema.

'Para ser grande, sê inteiro:nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.'

F.P, (Het. R. R.)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

'Esquece tudo o que te disse'

Muitas vezes dizemos coisas que não queremos. E isto é o que dizemos quando dizemos coisas que não queremos. No fundo, o que queremos dizer, quando dizemos coisas que não queremos, é mesmo o que acabamos por dizer. Ficou confuso? Eu também.

A verdade sai sempre em momentos de Terror ou de Amor. Simplesmente naquela altura fazia sentido, mesmo que por um momento. Pode ser feio e agressivo ou piroso e irritante mas temos que o dizer. Parece que engolimos o soro da verdade e queremos travar as palavras, impedí-las de sair mas não há nada a fazer. Tarde demais. '...ups, saíu-me!'
Depois não podemos fazer nem rewind nem undo. Já está. Só podemos dizer 'lamento imenso tudo o que te disse, não era minha intenção', bla, bla, bla ou se for noutro contexto, o contexto amoroso, mais piroso, podemos e devemos dizer (ainda com vergonha por nos lembrarmos do que dissemos...), 'Esquece tudo o que te disse. Foi bom enquanto durou a piroseira, mas agora temos que voltar ao normal.'
Ninguém aguenta muito tempo a dizer tanta verdade nua, crua e dura. E foleira. 

Verdade sim, mas com tento na língua.

domingo, 7 de novembro de 2010

'Prêt-à-porter'

As pessoas estão sempre a surpreender-nos. Pelas melhores e piores razões. É o que dizemos e o que ouvimos dizer muitas vezes. E não é mentira nenhuma. Mas será tão simples assim?
É muito fácil dizê-lo em tom depreciativo, como quem diz 'Realmente, ele há coisas! Nunca imaginei...!'
Estamos constantemente a criar expectativas dos outros, a fantasiar, fazemos grandes novelas sobre as atitudes dos outros, baseados em factos que nada têm de concreto.
Se alguém nos magoa, queremos imediatamente culpar uma maneira de ser horrível e dizemos 'Nunca imaginei que me pudesse fazer uma coisa destas!', e pensamos que somos todos muito diferentes e que nunca na vida poderíamos ter uma atitude semelhante. Errado. Quem erra tem esse direito, temos todos e todos, com maior ou menor frequência, com maior ou menor gravidade o exercemos.

Não devemos esperar o pior dos outros. Penso que não é uma maneira tranquila de se viver. Por outro lado, não devemos igualmente esperar maravilhas de ninguém. Somos todos farinha do mesmo saco, (uma mais refinada que outra), mas somos todos seres susceptíveis de errar. Logo, de magoar. O que quero dizer é simples. Não devemos julgar-nos especiais (bom, gosto de pensar que realmente sou...), de tal modo que ninguém possa cometer connosco alguma falha.

E a culpa? A culpa não morre solteira. A culpa não é só dos outros, mas também nossa, pelo simples facto de que provavelmente criámos algum tipo de expectativa naquela pessoa (por nossa iniciativa). Quem mandou? As pessoas são o que são, são o que querem ser, ou o que não querem, mas são-no. Elas estão ali, como numa loja em que não se faz roupa por medida. O que está no manequim é o que há, nem mais claro nem mais escuro, 'É só o que temos, minha Senhora!'
Então, porque vivemos em sociedade e porque 'temos que nos vestir', vamos, ao longo da vida, aprendendo a lidar com 'peças' de todos os feitios e tamanhos. Apercebemo-nos de que não vale a pena julgar, nem tão pouco culpar os outros quando temos tudo em nós para vivermos felizes.
E não nos esqueçamos que também nós fazemos parte do clube. ' pensando o quê?' 

sábado, 6 de novembro de 2010

'Não há corações no céu'

Com o passar do tempo, com o que vamos vivendo ao longo da vida, o nosso coração vai ficando mais brando, mais calmo. Vai-se habituando às circunstâncias da vida, ao que vai ganhando e ao que vai perdendo, às vitórias e às alegrias mas também às derrotas e às agruras da vida.
Vai acalmando, acalmando até um dia se extinguir. Tal como uma estrela, cuja luz vai diminuindo de intensidade até que se apaga no céu.

Parece-me tão triste...que mais um pouco dele se apagou.

'Cuidado. O Mestre anda aí'

Durante a nossa vida, cruzamo-nos com pessoas que deixam um pouco delas em nós, que se revelam muito importantes, naquele momento ou mesmo mais tarde. Outras, passam e seguem sem deixar nada memorável. Às primeiras dedico esta mensagem.

Muitas vezes, num primeiro contacto, ou mesmo 'à segunda vista', não percebemos o quão especial é uma pessoa ou não lhe damos, digamos assim, o devido crédito. Quantas vezes nos sucede dizer 'não dava nada por ti!' em tom surpreso... O mesmo acontece ao contrário, infelizmente, não raras vezes. Mas isso, meus caros, é a vida. Se estivermos atentos, e quando digo atentos quero dizer alerta, lúcidos, cientes do que somos e do nosso lugar, reconhecemos uma pessoa importante. Podemos não saber muito bem o que ela pode fazer por nós, além de nos dar a sua amizade e vice-versa, mas percebemos que é uma pessoa que vamos guardar na nossa memória. Umas vezes de uma maneira tão especial que guardamos mais do que uma memória, ('Quero-a comprar, pode-me embrulhar'), outras guardamos e usamos na nossa vida, e para sempre, o legado que nos deixou. E não são necessariamente coisas muito significativas. Por vezes uma palavra ou um episódio passado com uma pessoa com quem não temos grande intimidade, ou com colegas com quem trabalhámos apenas seis meses e nunca mais vemos na vida, significa muito no nosso caminho.
Quando ainda não estamos muito treinados em reconhecer estas pessoas, deixamos passar momentos, diminuimos atitudes, menosprezamos episódios. Mas quando entramos no esquema, não mais queremos deixar passar. É um vício, mas dos bons. Não são todos...? Adiante.
Mesmo sabendo reconhecer, é sempre difícil reconhecer que 'é o momento'. Cada episódio importante da nossa vida precisa de tempo para ser analisado, mastigado e assimilado, como que em retrospectiva. Só depois de viver é que entendemos o que aconteceu ali.
E então, mostram-nos diversas matérias. Dão-nos ferramentas. Em suma, estas pessoas ensinam-nos a saber viver. Umas ensinam-nos a ser gente, outras a amar, a saber como e por onde, a gostar de amar e a ser amantes. Outras há que nos ensinam a olhar para nós e a gostar de nos ver. Ensinam-nos a ser melhores, a crescer, a sair do escuro, a ser MAIORES.

Mas não é para qualquer um, não de qualquer maneira. 
É preciso estarmos centrados em nós. Inteiros. É preciso querermos muito, não podemos dizer que sim com a cabeça mas não o sentir verdadeiramente.  Como diz o ditado 'Quando o aluno está pronto o mestre aparece', quando estivermos prontos para receber, com todas as consequências que isso acarreta, a vida guia-nos e leva-nos a todos os 'mestres' dos nossos meandros.

A todos os que me 'fizeram', agradeço.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

'Nem prosa nem poesia'

Diz-se por aí muito coisa. E nos mais variados estados mentais.
Mas há cada coisa...!

Quando estamos naquele estado idiota, e que é tão bom, dizemos coisas tontas, por vezes ridículas, do tipo 'gosto de ti como sabe-se lá o quê', 'faço e aconteço', 'ai deixas-me assim ou assado', 'ai morro disto ou daquilo', enfim... são coisas que dizemos no seu estado puro, despidas de preconceitos e de ideias feitas. São muitas vezes lugares comuns mas aplicam-se verdadeiramente a cada caso.
Tudo o que dizemos com sentimento, sem pensar muito,  tudo o que é proferido naturalmente, embora por vezes básico, é também normalmente a linguagem mais verdadeira. O básico tem muito de complexo, portanto.

Mas o que há de melhor em se dizer ou escrever essas palavras é de facto poder senti-las. Aí, não há como descrever. Nem prosa nem poesia. Podem vir palavras tontas, frases ridículas. Sentir, sinta quem as vive.

'I have a body'

A nossa mente tem o poder de nos comandar para além daquilo que desejamos. Tudo começa e acaba nela.
A mente transporta-nos para onde quisermos. mas não é um elemento estranho, independente; a nossa mente somos nós.
Podemos por isso controlar o que quisermos, dizer que sim, mesmo que queiramos dizer que não, e vice-versa, simular que sentimos o que não estamos a sentir, enfim...
Como resultado temos duas hipóteses: podemos ficar frustrados ou podemos agir de acordo com o que ela nos diz e ficar satisfeitos. Esta é a verdade.

Podemos estar fisicamente num lugar e SENTIR como se estivéssemos a quilómetros de distância, noutro lugar...
Apenas o corpo cede de facto, disso já não há nem pode haver dúvidas.
O corpo, a componente física, a presença factual é muito forte e muito difícil de ignorar. Se assim não fosse... Por isso se diz que a distância acaba por fazer desaparecer os sentimentos ou pelo menos, faz com que comecem a enfraquecer até se extinguirem por completo, se a nossa mente o permitir, claro. A teoria do ‘Não há longe nem distância’, de Richard Back (‘se queres estar junto de alguém, não te parece que já lá estarás?’), é muito pura, muito linda, faz-nos sonhar, faz-nos querer viver despojados de qualquer matéria, mas não é para qualquer um, ou melhor não pode servir para ninguém.
Se por um lado a mente nos leva onde quisermos, a distância também acaba por apagar todos os vestígios do que já sentimos um dia. Sabemos que queremos, se pensarmos conseguimos sentir mas seguimos em frente. Temos que respirar, comer, dormir... temos que viver. Não podemos ficar agarrados ao nada.

Por isso seria ideal se fossemos só mente, só alma sem corpo, sem matéria. Não haveria dúvidas, não haveria lugares, regras, limites. Seriamos apenas livres, sempre inteiros, sempre nós.

O problema é sempre o mesmo e surge quando os ‘Corpos’ se aproximam… Atraem-se, colam-se, encostam-se, tocam-se, unem-se, fundem-se e encaixam-se. Depois... Depois não se querem mais dividir, decompor, fragmentar.
Querem ser unos, indivisíveis.

O ser humano é um animal como os outros. Mas pensa que não, imaginem! Veste-se, vive em casas, desloca-se em carros e pensa. Então, pensa que por pensar, já se afastou do básico. Tudo mentira.

Ainda temos que ler muito Deepak Chopra para sair deste estado primário em que nos encontramos e atingir a plenitude (ou qualquer coisa do género).
Há quem tenha sonhos. Eu tenho um corpo.