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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Soltem os mutantes - Parte II

Uma simples ida ao supermercado transforma-se numa expedição à selva em três tempos.
Entramos optimistas, de sorriso nos lábios, mas com um nervoso miudinho, como que antecipando o que nos espera. Fazemos as compras com alguma vontade e com imensas ideias para elaborar em casa. Ingrediente atrás de ingrediente vamos levando o que precisamos e, o que temos em dobro. 
Quando a lista chega ao fim, lembramo-nos que temos que passar pelas portas do inferno para deixar os dobrões. 
É nesse momento que olhamos para a meta. Eis que nos deparamos com as caixas cheias de bandos e matilhas como se tivesse chegado o dilúvio e todos quisessem entrar na arca e levar mantimentos. Começamos por bufar e por despir camadas de roupa. Pele atrás de pele, vamo-nos descascando para aliviar o calor. Chegamo-nos o mais que podemos ao cliente que está a nossa frente, pois se o fizermos, é certo que a fila vai andar mais depressa e a senhora da caixa, que está em modo câmara lenta, vai reparar que estamos com pressa e vai fazer acontecer o milagre da desmultiplicação de gente.
Neste momento, tiramos a pele que nos resta e em minutos passamos de humanos a selvagens.
Senão vejamos: a senhora gorda e barriguda faz-se imediatamente, como medida de recurso, passar por grávida. 'Eu tenho prioridade, não está a ver??' E eu penso, mas não digo, 'Não. Não estou a ver, senhora gorda.'; O senhor  que está com pressa para chegar mais depressa a casa, e que se encontra atrás da família com um carrinho a transbordar de compras, como leva apenas uma garrafa de água, começa a evidenciar que apenas tem um produto na mão, bufando e fazendo-se notar. De repente, alguém lança a confusão: 'não se entende! Tantas caixas e só 30 a funcionar!'. 'Pois, realmente! Isto é uma vergonha!'. 'E com tanta gente desempregada!'.
É vê-los zurrar, bufar e deitar fogo pelos olhos. 'Se pudesse agora, pregava-te uma rasteira e passava-te à frente. 'Ai, se soubesse que isto estava assim tinha trazido uma espingarda para espantar a caça!', 'mas porque é que não saí mais cedo de casa!' São muitos os lamentos que se adivinham com o olhar.

Assim que passamos as portas para lá do inferno, então tudo passa e tudo se esquece. É como se nunca tivéssemos estado ali, naquela angústia, com toda a bicharada.
Agora, de novo com um sorriso, estamos prontinhos para embarcar! ;)